terça-feira, 2 de julho de 2024

Do latim ao galego





Você sabe quais as origens da Língua Portuguesa? NÃO!? Pois agora saberá. Aqui contaremos para você tintim por tintim como a língua mais bonita do mundo surgiu.









Na vastidão do Império Romano, o latim era a língua oficial, unificando vastos territórios. No entanto, não era o latim clássico de Cícero e Virgílio que predominava nas ruas, mas sim o latim vulgar, uma forma mais coloquial e menos formal falada pelo povo comum. Foi esse latim vulgar que, com o declínio do império no século V d.C, começou a se fragmentar e a se transformar nas diversas línguas românicas, entre elas, o Galego-Português.

Com a queda do Império Romano do Ocidente em 476 d.C., a Península Ibérica, que tinha sido romanizada a partir do século III a.C., entrou em um período de convulsão política e social. Tribos germânicas, como os visigodos, estabeleceram seus reinos, e mais tarde, no século VIII, os mouros invadiram e conquistaram grandes partes da região. Durante esses tempos tumultuados, o latim vulgar evoluiu de forma distinta em várias regiões.



No noroeste da Península Ibérica, nas áreas correspondentes ao atual norte de Portugal e à Galícia, o latim vulgar começou a assumir características próprias. Esta região, mais isolada e menos influenciada pelas invasões árabes comparada ao resto da península, preservou e desenvolveu uma versão do latim vulgar que seria a semente do Galego-Português.

A evolução do latim vulgar para o Galego-Português foi marcada por diversas transformações fonéticas, morfológicas e sintáticas. Uma das mudanças mais notáveis foi a queda das terminações finais do latim, um processo comum em todas as línguas românicas. Por exemplo, o latim “amicus” evoluiu para “amigo” no Galego-Português, com a perda do “-us”.

Outro aspecto importante foi a palatalização, onde os sons latinos "c" e "g" antes das vogais "e" e "i" se transformaram em sons mais suaves, como "ch" e "j" respectivamente. Assim, “centum” (cem) tornou-se “cento” e “generalis” (geral) tornou-se “geral”.

O Galego-Português também herdou e adaptou o sistema vocálico do latim vulgar, simplificando as dez vogais latinas clássicas em sete, que depois evoluíram para os cinco sons vocálicos do português moderno.

Durante o período da Reconquista, do século IX ao século XV, os cristãos começaram a retomar territórios dos mouros. À medida que os reinos cristãos do norte se expandiam para o sul, a língua Galego-Portuguesa começou a se disseminar e a se consolidar nas novas regiões reconquistadas. Este processo não só fortaleceu a língua como também aumentou sua complexidade e riqueza, devido ao contato com outras culturas e línguas.

No século XII, com a formação do Reino de Portugal e o estabelecimento da Galícia como parte do Reino de Leão e depois de Castela, começou a se delinear uma separação gradual entre o galego e o português. No entanto, até o século XIV, os dois ainda eram considerados essencialmente a mesma língua, com pouca diferença entre as variantes faladas nas diferentes regiões.

A partir do século XV, as diferenças se acentuaram. O português, como língua oficial do Reino de Portugal, começou a se desenvolver de forma independente, influenciado por sua expansão marítima e o contato com outras culturas. Por outro lado, o galego ficou mais restrito à Galícia, onde, sob a dominação castelhana, começou a sofrer a influência do castelhano.

Hoje, o Galego e o Português são línguas irmãs, descendentes diretas do Galego-Português medieval. O português é uma língua global, falada por milhões em quatro continentes, enquanto o galego é uma língua cooficial na Galícia, preservando muitas características antigas do Galego-Português.

A jornada do latim vulgar ao Galego-Português é um testemunho da complexidade e da riqueza da evolução linguística, moldada por séculos de mudanças históricas, sociais e culturais. É uma história de como uma língua pode florescer e se diversificar, refletindo a trajetória de seus falantes através do tempo.

Surgimento do Português Clássico

 

O que é o português clássico e como ele surgiu?

A “criação” do português clássico pode ser marcada por um evento editorial: a data de impressão da Grammatica da lingoagem portuguesa, de Fernão de Oliveira, em 1536. Esse ano representa o início da reflexão metalinguística que, em Portugal, passou a ter por objeto a língua nacional. Assim, também pode simbolizar uma nova fase da história do português, pois um tratado que toma a língua vulgar como símbolo de uma nacionalidade, que atenta na sua variação cronológica, social e regional e que sugere a adoção de um código escrito uniforme, revela sinais de um pensamento humanista.

Entretanto, há mais motivos para 1536 ser o início da era do Renascimento em Portugal. A representação do último auto de Gil Vicente, Floresta de enganos, e a morte de Garcia de Resende, eventos que aconteceram nesse ano, marcam a saída de cena de dois personagens importantes vinculados à língua literária de época pré-clássica. Além disso, há o funcionamento do último ano letivo da Universidade de Lisboa e sua posterior instalação em Coimbra, que significam o encerramento de uma fase de escolasticismo e preconceito medieval.      

Garcia de Resende
Gil Vicente

            

A conquista de Ceuta, em 1415, o povoamento do arquipélago de Madeira, em 1425, e o estabelecimento da primeira feitoria, em Arguim, após 1445, são marcos cronológicos da expansão do português fora da Europa.

Como 1415 simboliza o início da expansão portuguesa, o ano também significa a exportação de falantes da língua portuguesa para territórios ultramarinos. Essa exportação tem várias consequências linguísticas: onde os portugueses se estabeleceram em massa, passaram a ser faladas variedades da língua, mais ou menos distanciadas da norma europeia, conforme a estreiteza de laços com a metrópole. Porém, em terras que foram utilizadas apenas como um ponto estratégico para a instalação de um entreposto comercial, só houve condições propícias para a formação de um crioulo com base lexical portuguesa. Isso aconteceu ao longo das costas africana e asiática.

Para se conhecer a língua falada em território português a partir de 1536, é necessário recorrer ao testemunho direto de observadores especializados como os gramáticos, os lexicógrafos, os ortógrafos e os pedagogos. Esse tipo de fonte junta-se àquelas constituídas pelos documentos, literários e não literários, e pelos dialetos arcaizantes do português, de maneira que passa a ser mais fácil saber como se falava e escrevia em Portugal do século XVI em diante. As investigações sobre esse assunto foram feitas, principalmente, por Serafim da Silva Neto e Paul Teyssier.

Ao nível léxico, não se pode dissociar a língua do século XVI do movimento humanista, seu contemporâneo. A cultura da Antiguidade Clássica, que se pretendia recuperar, renascia sobretudo pelo convívio filológico dos autores com os textos clássicos latinos. O resultado disso foi a entrada em grande quantidade de empréstimos lexicais feitos ao latim literário – e ao grego latinizado – e inseridos, como maior ou menor abruptidão, no léxico português. O contraste com o mesmo pedido de empréstimo feito no século XV por autores como o Infante D. Pedro é bem claro. Enquanto D. Pedro, na tradução que fez do De Officiis de Cícero, tentou frequentemente substituir a forma latina por uma forma vernácula portuguesa, quando a identidade do conceito não era duvidosa, Luís de Camões só adaptou à morfologia portuguesa uma lista enorme de palavras latinas.

segunda-feira, 1 de julho de 2024

Origem e uso da Língua Crioula

Você sabia que, além do Brasil, há outros países que também falam português? 


    A existência de países, ao redor do mundo, que também falam o português, se devem a determinados acontecimentos no decorrer da história da nossa língua, mas sobretudo, pelo desenvolvimento das línguas crioulas.

    As línguas crioulas são línguas naturais que surgiram historicamente através do contato linguístico entre grupos de falantes de línguas diferentes, muitas vezes em contextos de colonização, comércio ou migração. 

    O processo de formação dessas línguas, se inicia com um primeiro contato de emergência entre povos diferentes que interagiam regularmente e desenvolviam uma forma de comunicação comum. Isso ocorria, por exemplo, quando colonizadores europeus entravam em contato com populações nativas de diversas regiões do mundo. Por exemplo, o crioulo de Cabo Verde e o crioulo de São Tomé e Príncipe têm suas raízes no contato entre línguas africanas e o português.

    As comunidades colonizadas tinham várias línguas naturais entre elas e não possuíam recursos para aprender a língua do colonizador e desenvolviam um pidgin, isto é, um sistema linguístico rudimentar, com palavras baseadas na língua de superstrato caracterizado por uma estrutura gramatical simplificada e um vocabulário limitado.

    Um pidgin apenas se tornava, de fato, uma língua crioula, quando era adotado por uma comunidade de falantes como língua principal, se desenvolvendo de forma autônoma. Isso envolvia a expansão do vocabulário, a formação de uma gramatica mais complexa e a adaptação para atender às necessidades de comunicação daquele povo. Ela, ainda se estabelecia como a língua materna de uma comunidade específica e assim era transmitida para as gerações seguintes.


CRIOULOS DE BASE PORTUGUESA

    Os crioulos de base portuguesa surgiram principalmente na África, nas Américas (especialmente no Brasil) e em algumas ilhas do Oceano Índico. Eles são o resultado do contato entre o português e as línguas locais, muitas vezes línguas africanas no continente africano e línguas indígenas nas Américas.

    Esses crioulos de base portuguesa geralmente tinham o português como base lexical, mas com influências significativas das línguas locais. Isso significa que o vocabulário básico é em grande parte derivado do português, mas novos termos eram introduzidos para conceitos específicos locais. 

    Um exemplo de língua crioula é o do crioulo Cabo-verdiano. Tinha origem nas ilhas de Cabo Verde, sendo uma língua de base portuguesa influenciada por línguas africanas. É a língua materna de muitos Cabo-verdianos e possui diversas variedades regionais.

    Hoje, além de Portugal e Brasil, países como Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste têm o português como língua oficial ou uma das línguas principais. Essa diversidade linguística reflete não apenas a história compartilhada, mas também a riqueza cultural e a conexão global da língua portuguesa, através das línguas crioulas.
















Português Arcaico


Cantiga de amor "Pois ante vós estou aqui", escrita por D. Dinis (1261-1325), exibida em português, galego-português com a grafia normaliza e galego-português com grafia original. 



 

Os primeiro textos escritos em português datam do século XII, mas do século XI em diante, em alguns escritos latino-bárbaros, aparecem palavras que podemos considerar como portuguesas. Até meados do século XVI (onde Gil Vicente, Sá de Miranda estão em alta), a língua apresenta características gramaticais, estilísticas e lexicólogas que a separam do porvir. Esse recorte é chamado de Português Antigo, e abrange desde o início do surgimento da língua, até a consolidação de aspectos principais que fincam o português moderno. Uma longa evolução fonética, morfológica, sintática e lexical da língua, além das influências históricas, sociais e culturais, conecta o português falado em meados de 1193 até o português que utilizamos hoje. Os documentos que servem para pesquisa desse período da língua, são divididos em dois: os documentos públicos, que variam entre títulos de compra e venda, testamentos, e etc, e são de grande importância, principalmente por possuir data e  lugar; e os documentos literários, que são extensos e variam entre prosa, lirismo (sendo o trovadorismo um dos mais conhecidos), obras religiosas, didáticas e afins. 

Excerto extraído da obra: Textos arcaicos (José Leite de Vasconcellos, 4° edição, 1922. Livraria Clássica Editora)

Adentrando um pouco no mundo dos documentos literários, especialmente na poesia lírica, convém dizer que sua língua primitiva foi o galego-português, e que se manteve organizada e conservada em três cancioneiros, sendo apenas um compilado no mesmo "momento" em que foi feito, o Cancioneiro da Ajuda, que é datado no fim do século XIII, ou início do XIV, sendo o menor em quantidade de poemas. Os cancioneiros que foram compilados posteriormente, possuem mais poemas, sendo eles o Cancioneiro da Vaticana e o Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa. Nos Cancioneiros, é possível encontrar momentos em que duas vogais em contato devem ser contadas como apenas uma sílaba, como em seredes por seeredes. Com isso, é possível notar que já em época tão tenra, as evoluções linguísticas se iniciam, e que nesse caso em específico, culminará em eliminar a maior parte dos encontros vocalicos em português. No link abaixo, há um poema de D. Dinis, intitulada de "Ai flores do verde pino", que é a cantiga de amigo mais conhecida do autor.

 

Fonte manuscrita do poema. https://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=592&pv=sim

Ai flores do verde pino - Dom Dinis - Cantiga de amigo - LEGENDADO PT/BR   

Essa fase do português possui maior proximidade com o latim vulgar, tanto na gramática, quanto no léxico, apresentando assim, uma variedade de formas verbais e nominais que, na maioria das vezes, acabou sendo simplificada no português contemporâneo. A ortografia não seguia normais rígidas, era mais fonética, o que contribuía para refletir as inúmeras pronúncias regionais da época. Um sinal que aparece com frequência nos textos da época arcaica, é o til (~). Ele servia para indicar nasalidade das vogais, mas também podia acompanhar uma consoante nasal, como em razõ, razom, ou razon. Assim como o latim, o português antigo possuía um sistema de casos gramaticais, que se perdeu com o tempo e foi substituído por uma estrutura mais analítica.

Sobre as influências que o português antigo recebeu, podemos contar com a influência francesa/provençal, já que a partir do século XI se intensificaram as relações literárias e religiosas entre esses dois mundos. Toda poesia trovadoresca está cheia dessa influência; a prosa e a crônica também, principalmente em seus inícios, onde se pode encontrar diversas palavras francesas. Algumas delas são: cousimento, deleite, folia, menage, trobar e refrão. As influências italiana e espanhola foram quase nulas nesse período; ainda sim, alguns vocábulos surgiram dessa interação com a Itália, sendo alguns deles: cavalaria, sentinela e canhão.

Uma influência bem conhecida é a árabe, mas ela só teve força no âmbito lexical. Não existem traços do árabe na fonética, morfologia ou sintaxe. Ainda sim, essa influência lexical acompanha a língua portuguesa até os dias de hoje. Eis algumas palavras: alfaiate, algibebe, aldeia, açude, adaga, arsenal, quintal, cifra, zero e quilate. Uma maneira interessante de enxergar essas aproximações lexicais, é tentar entender como essas palavras que estão no português, são realizadas foneticamente em árabe. O quadro abaixo pode ajudar nisso. 


 

 

 

 




Do latim ao galego

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