segunda-feira, 1 de julho de 2024

Português Arcaico


Cantiga de amor "Pois ante vós estou aqui", escrita por D. Dinis (1261-1325), exibida em português, galego-português com a grafia normaliza e galego-português com grafia original. 



 

Os primeiro textos escritos em português datam do século XII, mas do século XI em diante, em alguns escritos latino-bárbaros, aparecem palavras que podemos considerar como portuguesas. Até meados do século XVI (onde Gil Vicente, Sá de Miranda estão em alta), a língua apresenta características gramaticais, estilísticas e lexicólogas que a separam do porvir. Esse recorte é chamado de Português Antigo, e abrange desde o início do surgimento da língua, até a consolidação de aspectos principais que fincam o português moderno. Uma longa evolução fonética, morfológica, sintática e lexical da língua, além das influências históricas, sociais e culturais, conecta o português falado em meados de 1193 até o português que utilizamos hoje. Os documentos que servem para pesquisa desse período da língua, são divididos em dois: os documentos públicos, que variam entre títulos de compra e venda, testamentos, e etc, e são de grande importância, principalmente por possuir data e  lugar; e os documentos literários, que são extensos e variam entre prosa, lirismo (sendo o trovadorismo um dos mais conhecidos), obras religiosas, didáticas e afins. 

Excerto extraído da obra: Textos arcaicos (José Leite de Vasconcellos, 4° edição, 1922. Livraria Clássica Editora)

Adentrando um pouco no mundo dos documentos literários, especialmente na poesia lírica, convém dizer que sua língua primitiva foi o galego-português, e que se manteve organizada e conservada em três cancioneiros, sendo apenas um compilado no mesmo "momento" em que foi feito, o Cancioneiro da Ajuda, que é datado no fim do século XIII, ou início do XIV, sendo o menor em quantidade de poemas. Os cancioneiros que foram compilados posteriormente, possuem mais poemas, sendo eles o Cancioneiro da Vaticana e o Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa. Nos Cancioneiros, é possível encontrar momentos em que duas vogais em contato devem ser contadas como apenas uma sílaba, como em seredes por seeredes. Com isso, é possível notar que já em época tão tenra, as evoluções linguísticas se iniciam, e que nesse caso em específico, culminará em eliminar a maior parte dos encontros vocalicos em português. No link abaixo, há um poema de D. Dinis, intitulada de "Ai flores do verde pino", que é a cantiga de amigo mais conhecida do autor.

 

Fonte manuscrita do poema. https://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=592&pv=sim

Ai flores do verde pino - Dom Dinis - Cantiga de amigo - LEGENDADO PT/BR   

Essa fase do português possui maior proximidade com o latim vulgar, tanto na gramática, quanto no léxico, apresentando assim, uma variedade de formas verbais e nominais que, na maioria das vezes, acabou sendo simplificada no português contemporâneo. A ortografia não seguia normais rígidas, era mais fonética, o que contribuía para refletir as inúmeras pronúncias regionais da época. Um sinal que aparece com frequência nos textos da época arcaica, é o til (~). Ele servia para indicar nasalidade das vogais, mas também podia acompanhar uma consoante nasal, como em razõ, razom, ou razon. Assim como o latim, o português antigo possuía um sistema de casos gramaticais, que se perdeu com o tempo e foi substituído por uma estrutura mais analítica.

Sobre as influências que o português antigo recebeu, podemos contar com a influência francesa/provençal, já que a partir do século XI se intensificaram as relações literárias e religiosas entre esses dois mundos. Toda poesia trovadoresca está cheia dessa influência; a prosa e a crônica também, principalmente em seus inícios, onde se pode encontrar diversas palavras francesas. Algumas delas são: cousimento, deleite, folia, menage, trobar e refrão. As influências italiana e espanhola foram quase nulas nesse período; ainda sim, alguns vocábulos surgiram dessa interação com a Itália, sendo alguns deles: cavalaria, sentinela e canhão.

Uma influência bem conhecida é a árabe, mas ela só teve força no âmbito lexical. Não existem traços do árabe na fonética, morfologia ou sintaxe. Ainda sim, essa influência lexical acompanha a língua portuguesa até os dias de hoje. Eis algumas palavras: alfaiate, algibebe, aldeia, açude, adaga, arsenal, quintal, cifra, zero e quilate. Uma maneira interessante de enxergar essas aproximações lexicais, é tentar entender como essas palavras que estão no português, são realizadas foneticamente em árabe. O quadro abaixo pode ajudar nisso. 


 

 

 

 




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