terça-feira, 2 de julho de 2024

Surgimento do Português Clássico

 

O que é o português clássico e como ele surgiu?

A “criação” do português clássico pode ser marcada por um evento editorial: a data de impressão da Grammatica da lingoagem portuguesa, de Fernão de Oliveira, em 1536. Esse ano representa o início da reflexão metalinguística que, em Portugal, passou a ter por objeto a língua nacional. Assim, também pode simbolizar uma nova fase da história do português, pois um tratado que toma a língua vulgar como símbolo de uma nacionalidade, que atenta na sua variação cronológica, social e regional e que sugere a adoção de um código escrito uniforme, revela sinais de um pensamento humanista.

Entretanto, há mais motivos para 1536 ser o início da era do Renascimento em Portugal. A representação do último auto de Gil Vicente, Floresta de enganos, e a morte de Garcia de Resende, eventos que aconteceram nesse ano, marcam a saída de cena de dois personagens importantes vinculados à língua literária de época pré-clássica. Além disso, há o funcionamento do último ano letivo da Universidade de Lisboa e sua posterior instalação em Coimbra, que significam o encerramento de uma fase de escolasticismo e preconceito medieval.      

Garcia de Resende
Gil Vicente

            

A conquista de Ceuta, em 1415, o povoamento do arquipélago de Madeira, em 1425, e o estabelecimento da primeira feitoria, em Arguim, após 1445, são marcos cronológicos da expansão do português fora da Europa.

Como 1415 simboliza o início da expansão portuguesa, o ano também significa a exportação de falantes da língua portuguesa para territórios ultramarinos. Essa exportação tem várias consequências linguísticas: onde os portugueses se estabeleceram em massa, passaram a ser faladas variedades da língua, mais ou menos distanciadas da norma europeia, conforme a estreiteza de laços com a metrópole. Porém, em terras que foram utilizadas apenas como um ponto estratégico para a instalação de um entreposto comercial, só houve condições propícias para a formação de um crioulo com base lexical portuguesa. Isso aconteceu ao longo das costas africana e asiática.

Para se conhecer a língua falada em território português a partir de 1536, é necessário recorrer ao testemunho direto de observadores especializados como os gramáticos, os lexicógrafos, os ortógrafos e os pedagogos. Esse tipo de fonte junta-se àquelas constituídas pelos documentos, literários e não literários, e pelos dialetos arcaizantes do português, de maneira que passa a ser mais fácil saber como se falava e escrevia em Portugal do século XVI em diante. As investigações sobre esse assunto foram feitas, principalmente, por Serafim da Silva Neto e Paul Teyssier.

Ao nível léxico, não se pode dissociar a língua do século XVI do movimento humanista, seu contemporâneo. A cultura da Antiguidade Clássica, que se pretendia recuperar, renascia sobretudo pelo convívio filológico dos autores com os textos clássicos latinos. O resultado disso foi a entrada em grande quantidade de empréstimos lexicais feitos ao latim literário – e ao grego latinizado – e inseridos, como maior ou menor abruptidão, no léxico português. O contraste com o mesmo pedido de empréstimo feito no século XV por autores como o Infante D. Pedro é bem claro. Enquanto D. Pedro, na tradução que fez do De Officiis de Cícero, tentou frequentemente substituir a forma latina por uma forma vernácula portuguesa, quando a identidade do conceito não era duvidosa, Luís de Camões só adaptou à morfologia portuguesa uma lista enorme de palavras latinas.

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