O que é o
português clássico e como ele surgiu?
A “criação” do
português clássico pode ser marcada por um evento editorial: a data de
impressão da Grammatica da lingoagem portuguesa, de Fernão de Oliveira,
em 1536. Esse ano representa o início da reflexão metalinguística que, em
Portugal, passou a ter por objeto a língua nacional. Assim, também pode
simbolizar uma nova fase da história do português, pois um tratado que toma a
língua vulgar como símbolo de uma nacionalidade, que atenta na sua variação
cronológica, social e regional e que sugere a adoção de um código escrito
uniforme, revela sinais de um pensamento humanista.
Entretanto, há mais motivos para 1536 ser o início da era do Renascimento em Portugal. A representação do último auto de Gil Vicente, Floresta de enganos, e a morte de Garcia de Resende, eventos que aconteceram nesse ano, marcam a saída de cena de dois personagens importantes vinculados à língua literária de época pré-clássica. Além disso, há o funcionamento do último ano letivo da Universidade de Lisboa e sua posterior instalação em Coimbra, que significam o encerramento de uma fase de escolasticismo e preconceito medieval.
![]() |
| Garcia de Resende |
![]() |
| Gil Vicente |
A conquista de
Ceuta, em 1415, o povoamento do arquipélago de Madeira, em 1425, e o
estabelecimento da primeira feitoria, em Arguim, após 1445, são marcos
cronológicos da expansão do português fora da Europa.
Como 1415
simboliza o início da expansão portuguesa, o ano também significa a exportação
de falantes da língua portuguesa para territórios ultramarinos. Essa exportação
tem várias consequências linguísticas: onde os portugueses se estabeleceram em
massa, passaram a ser faladas variedades da língua, mais ou menos distanciadas
da norma europeia, conforme a estreiteza de laços com a metrópole. Porém, em
terras que foram utilizadas apenas como um ponto estratégico para a instalação
de um entreposto comercial, só houve condições propícias para a formação de um
crioulo com base lexical portuguesa. Isso aconteceu ao longo das costas
africana e asiática.
Para se conhecer a língua falada em território português a partir de 1536, é necessário recorrer ao testemunho direto de observadores especializados como os gramáticos, os lexicógrafos, os ortógrafos e os pedagogos. Esse tipo de fonte junta-se àquelas constituídas pelos documentos, literários e não literários, e pelos dialetos arcaizantes do português, de maneira que passa a ser mais fácil saber como se falava e escrevia em Portugal do século XVI em diante. As investigações sobre esse assunto foram feitas, principalmente, por Serafim da Silva Neto e Paul Teyssier.
Ao nível
léxico, não se pode dissociar a língua do século XVI do movimento humanista,
seu contemporâneo. A cultura da Antiguidade Clássica, que se pretendia
recuperar, renascia sobretudo pelo convívio filológico dos autores com os
textos clássicos latinos. O resultado disso foi a entrada em grande quantidade
de empréstimos lexicais feitos ao latim literário – e ao grego latinizado – e
inseridos, como maior ou menor abruptidão, no léxico português. O contraste com
o mesmo pedido de empréstimo feito no século XV por autores como o Infante D.
Pedro é bem claro. Enquanto D. Pedro, na tradução que fez do De Officiis
de Cícero, tentou frequentemente substituir a forma latina por uma forma
vernácula portuguesa, quando a identidade do conceito não era duvidosa, Luís de
Camões só adaptou à morfologia portuguesa uma lista enorme de palavras latinas.


Nenhum comentário:
Postar um comentário